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quarta-feira, 7 de maio de 2014

Televisão: espelho do telespectador?

Imagem Google
Os programas de TV são pautados a partir da "vontade" da audiência. O público é o termômetro. Se não tem quem vê, não tem por que mostrar.

O filme "Heroi por Acidente" coloca em pauta uma discussão interessante: a forma como a mídia se apropria da realidade e o modo como o público reage diante disso. De um lado está a busca desenfreada pela audiência, do outro, pessoas sedentas por histórias que as façam sentir algo que as tire de suas rotinas. Pode ser indignação, admiração, encantamento. Estes dois últimos sentimentos envolvem a película em questão ao trazer a mensagem do heroi. 

Na verdade, trata-se da construção de um heroi. As pessoas gostam de herois. A impressão que dá quando se tem uma discussão como esta é a de que os telespectadores se sentem bem quando enganados. Têm prazer em criar, inventar realidades com a ajuda dos meios de comunicação. Neste caso, a TV é mais poderosa do que outros veículos. Ela conta uma história, o povo acredita. Mesmo quando a televisão não inventa o que veicula é uma construção, porque o que é apresentado é feito de recortes, de enfoques muito bem pensados. Mas se a TV mostra é porque tem quem vê e gosta de ver.

Há na audiência (público) uma necessidade de projetar seus sonhos, ambições, frustrações, raiva no outro, no personagem, como se suas vidas fossem desprovidas de sentido ou importância. É aqui que está a questão central desta discussão: as pessoas se veem nos personagens de TV, sejam eles reais ou não. E os produtores, os donos do jogo, sabem disso. E se aproveitam. E aí não tem mais volta. O que foi mostrado não será apagado. Nem a TV nem o povo voltará atrás. 

No filme, quando a ambiciosa repórter Gale Gayley, que é capaz de tudo por uma matéria impactante, descobre que, na realidade, o heroi não é quem diz ser, ela percebe que o melhor é deixar tudo como está. É assim que funciona a mídia. Afinal, quem mais sairia perdendo, se a verdade viesse à tona? O personagem criado? O público? Ou a TV? Certamente a televisão. Porque o que entra em cena nesse momento é a credibilidade e a ética. Mas será que admitir um erro de apuração, um erro grave como esse seria tão prejudicial assim para ambos os lados? Pelo visto sim. Melhor maquiar, passar por cima e continuar na busca incessante de outros personagens, novas histórias que despertem sentimentos bons ou ruins nas pessoas, mas que continuem colocando a audiência nas alturas. Infelizmente, é isso que importa em um mundo cheio de gente que prefere ser conduzida a questionar, que precisa de herois e vilões para sentir que a vida não é vã. Mesmo que tudo não passe de invenção, pura e simples. 


Sinopse 

O filme, dirigido por Stephen Frears, conta a história de Bernie Laplante, papel de Dustin Hoffman, um homem aparentemente nada amigável com problemas na justiça, divorciado e pai de um menino de 10 anos, que um dia salva 54 passageiros, vítimas de uma acidente de avião. No meio da confusão ele perde um pé de sapato e desaparece. A repórter de TV Gale Gayley, intrepretada por Geena Davis, é uma das pessoas salvas por Laplante. A fim de descobrir a identidade de seu heroi e com isso produzir uma grande reportagem, ela e o canal onde trabalha oferecem um milhão de dólares a quem encontrá-lo. Acontece que Bernie doou o sapato que restou para um desabrigado chamado John Bubber - Andy Garcia -, um homem bonito e carismático, que se apresenta como o tal heroi anônimo para embolsar o dinheiro, mas acaba conquistando o coração de toda a cidade.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Abrem-se as cortinas da realidade inventada, o espetáculo vai começar

Kirk Douglas em cena de "A montanha dos sete abutres"


Manipulação, audiência, gosto pela tragédia, por parte do público: fatos que marcaram a imprensa brasileira nos últimos anos, por fugirem da ética


Não é de hoje e nem por acaso, que o Jornalismo é duramente retratado nas telonas, como algoz da sociedade, o poderoso manipulador das realidades. O Jornalista, como indivíduo social, por sua vez, também não fica atrás, pois muitas vezes, para satisfazer seu ego acaba por agir em prol de status e a ética que deveria ser colocada em prática e em primeiro plano, em cada fato noticiado é deixada de lado. Muitas vezes é como se ela não existisse, para o Jornalista, e principalmente, para as grandes Empresas que o sustenta, aliás, elas são as beneficiadas com a notícia-espetáculo, que gera audiência, visibilidade e lucro. Um exemplo disso é a fantasiosa história do “bebê diabo”, na qual o jornal Notícias Populares, por falta de notícias que chamassem a atenção inventou que havia nascido um bebê com chifres e rabo no ABC paulista. A história se alastrou como praga e as vendas, por conta do caso, alavancaram.
Por outro lado, embora cada profissional tenha uma visão diferente dos fatos, existe uma verdade que é inerente ao acontecimento. Contudo, essa verdade, essa realidade, muitas vezes é vista pelo próprio público como desinteressante, a mídia em conseqüência disso, mostra o que sabe que será aceito, manipulando, muitas vezes, os fatos da maneira que acha necessário.  
A montanha dos sete Abutres filme dos anos 50 mostra a história de um jornalista antiético,  vivido pelo ator Kirk Douglas, que já foi demitido, justamente, por essa postura, de grandes Jornais como o The New York Times, e que vai trabalhar em um pequeno Jornal de uma pequena cidade, onde nada acontece. Ele almeja a qualquer custo voltar ao posto de antes; para isso espetaculariza e adia a solução de um acidente que acaba em tragédia, por conta de sua manipulação.
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Usa-se a máxima “quanto pior, melhor”, e isso, no entanto, acaba banalizando as notícias, sem levar em conta as pessoas envolvidas, os seus sentimentos, as suas dores.
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A apuração e veiculação da verdade deveriam ser a palavras chaves que movem o jornalismo e o jornalista, mas não é. No Brasil temos casos de sensacionalismo vergonhoso, que até hoje vivem latentes na memória da imprensa, como por exemplo, o caso da Escola Base, uma escolinha infantil, cujos donos foram acusados pelos mais variados meios de comunicação de molestarem as crianças. As vítimas acusadas e condenadas pela imprensa tiveram suas vidas transformadas, para o resto de seus dias, devido a esse mau jornalismo; aquele que fere os direitos, a integridade, a honra dos escolhidos para o massacre midiático.  
Não precisamos ir muito longe, há três anos, Isabella Nardoni foi jogada da janela do apartamento onde morava em São Paulo, pelo pai e a madrasta, que foram condenados. As notícias não tinham fim. Os jornais fizeram da tragédia um “show”. Assim como no caso Eloá, a jovem assassinada pelo ex-namorado depois de mantê-la refém em sua casa em Santo André. As pessoas assistiram ao vivo minuto a minuto a   morte anunciada de Eloá.
As tragédias atraem o leitor, o telespectador, e ainda mais quando são mostradas de forma sensacionalista. Usa-se a máxima “quanto pior, melhor”, e isso, no entanto, acaba banalizando as notícias, sem levar em conta as pessoas envolvidas, os seus sentimentos, as suas dores. E quem paga a dignidade roubada de alguém que foi acusado por algo que não cometeu? Ou das mães que perderam suas filhas e sabem que o país inteiro comenta sobre o assunto e que muitos até fazem piadas a respeito, pois o fato de tanto que “girou” foi banalizado?  
Segundo Clóvis Rossi, a função do Jornalista não é somente descrever, mas descrever para transformar. Pouco se vê a esse respeito. Pior, em vez de descrever um fato, a imprensa, o jornalista o modifica, inventa, aumenta, a ética é só uma pequena  palavra. Fecham-se as cortinas, a vida volta ao “normal”, até o próximo espetáculo.