quarta-feira, 17 de abril de 2013

Análise do filme O carteiro e o poeta

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O Filme de 1994, dirigido por Michael Radford, conta a história de Mario Ruppolo, um homem simples e sonhador que mora com o pai, um pescador, em uma vila, na Itália. Mário se recusa a seguir o mesmo ofício. Diz que tem enjoos no mar. Ele então consegue um emprego nos correios. Fica encantado quando descobre que vai entregar cartas para o poeta Chileno – Prêmio Nobel de Literatura (1971) - , Pablo Neruda que, por motivos políticos, está exilado na ilha. Eles, embora venham de mundos bastante distintos, logo se tornam amigos. A simplicidade de Mário cativa o poeta.

Mario apaixona-se por Beatrice, mas é muito tímido. Para tentar conquistá-la, pede a Neruda que o ensine a fazer poesia. Descobre que não é nada fácil. Não consegue escrever um poema sequer. No entanto, consegue o amor de sua musa, recitando para ela uma poesia de Neruda. Em determinado momento, o poeta lhe fala que nos textos poéticos são utilizadas as metáforas. Mario fica confuso, nunca tinha ouvido aquela palavra, portanto, não sabia o que ela significava.

Sentados frente à praia, Neruda lhe recita uma poesia. De forma figurativa fala sobre o mar. Utiliza o ritmo das palavras: intensidade, sonoridade.  Dá voz ao mar. Ao questionar o que o amigo pensa sobre suas palavras, descobre que o fez sentir-se estranho. Mario descreve a sensação. Diz que, ao som da poesia, sente-se como se fosse um barco em movimento. Assim, o poeta explica ao amigo que a descrição do que sentiu é uma metáfora.

Com o fim do exílio, Neruda volta ao seu país. Mário fica extremamente triste, pois a presença do poeta na ilha o transformou. Ele desenvolveu seu senso crítico sobre política e classe social. O carteiro casa-se com Beatrice e ela engravida. Um dia, antes de sua morte, Ruppolo decide fazer uma surpresa para o amigo distante. Com um rádio transmissor, ele capta o som do mar, das montanhas, do coração do filho, ainda na barriga da mãe, e das estrelas. O carteiro, que não conseguira escrever uma palavra poética, nesse momento, cria a mais bela e única poesia de sua vida.

Segundo a semiótica perciana, um signo é algo que representa à mente alguma outra coisa, algo diferente de si mesmo. Compõe-se de três termos: o signo, o objeto e o interpretante. Neste sentido, Mario Ruppolo, o interpretante, mesmo não conseguindo expressar-se em palavras poéticas, seu objeto de desejo, como gostaria, transcende a dificuldade ao realizar a gravação dos sons ambientes, inclusive o som das estrelas. A composição poética do carteiro compõe-se de signos não verbais.


Quanto à relação, os signos se classificam em: ícone que representa seu objeto por semelhança; índice, por ligação factual e símbolo, por hábitos e convenções.  O signo icônico ou hipoícone, de acordo com Pierce[1], refere-se a algo que já se mostra como signo, representando alguma coisa. Os ícones dividem-se entre: imagem, que diz respeito às características abstraídas da imagem; diagrama que representa as relações internas, semelhança entre a representação e a realidade e, por fim, as metáforas que, segundo Pierce, “representam o caráter representativo de um signo, traçando-lhe um paralelismo com algo diverso”. Ou seja, metáforas são comparações, significados de dois elementos distintos.

Nas palavras de Lucia Santaella[2], as metáforas “(...) extraem tão-somente o caráter, o potencial representativo em nível de qualidade, de algo e fazem o paralelo com alguma coisa diversa. Há sempre uma forte dose de mentalização e acionamento de significados nas metáforas”. Neste caso, quando Neruda tenta explicar para Ruppolo o significado da metáfora, ele não entende. No entanto, ao ouvir poema recitado pelo poeta, o carteiro consegue captar, por meio dos sentidos, a beleza daquelas palavras. Ele consegue sentir as palavras em movimento como o vai e vem das ondas do mar.

"O Carteiro e o Poeta" é uma Obra-prima. Repleta de significados, de signos verbais e não verbais: a música, a paisagem, a poesia, o amor, o aprendizado, a amizade e outros tantos. Simplesmente apaixonante e inesquecível.



[1] Citado por Santaella – A teoria geral dos signos – como as linguagens significam as coisas – pg 111
[2] A teoria geral dos signos – como as linguagens significam as coisas – pg 120

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Análise> O Enigma de Kaspar Hauser

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O Filme conta a história de Kaspar Hauser, um indivíduo que surge, não se sabe de onde, na Alemanha, no início século XIX, e que entrou tardiamente para a comunidade linguística. Misteriosamente, o rapaz não fora apresentado a nenhuma forma de linguagem; não sabia falar, escrever nem tinha coordenação motora desenvolvida. Por ter vivido isolado, era um ser fora do mundo. Apesar disso, havia nele certa docilidade. A música o encantava de forma imensurável e ele queria poder ser capaz de executá-la ao piano.

Hauser não tinha noção de verticalidade ou horizontalidade. Não sabia discernir entre sonho e realidade e, assim, sentia-se triste e ferido, pois possuía um vazio existencial. A música, neste sentido, o preenchia e por isso era tão importante para ele, pois esta, além de ser uma linguagem universal, está além da expressão verbal, além das limitações linguísticas. A música é natural ao homem, e, por isso, consegue alcançá-lo no mais íntimo do seu ser e ela tocava Hauser profundamente.

Kaspar Hauser tinha certa dificuldade em aceitar os preceitos da sociedade. Ele fazia questionamentos sobre religião e o papel da mulher e do homem naquele contexto. Além disso, não sabia contar sobre seu passado, sua história, pois não conseguia articular, interpretar ou relacionar acontecimentos vividos. O homem é a única espécie que transmite informação essencial para a vida, por meio de narrativas, de histórias que conta, ao longo de sua existência. Kaspar Hauser, no entanto, foi privado desta condição. Ele não ouviu e, desta forma, não aprendeu a contar sua própria história. Assim, de acordo com o filme, Kaspar Hauser não desenvolveu a linguagem naturalmente, mas culturalmente. Visto que quando apareceu apenas repetia que queria “ser tão bom cavaleiro como meu pai foi”, mas com a convivência com as pessoas foi aprendendo o que lhe ensinavam.  

Neste sentido, a história de Kaspar Hauser enquadra-se na teoria do relativismo linguístico, na qual a experiência determina a linguagem. Assim, o ser humano constrói-se a partir da cultura e da língua do contexto que o circunda. A experiência refere-se àquilo que o sujeito é capaz de captar pelos cinco sentidos, ou seja, a relação dele com o meio. Nesta visão teórica, a linguagem é fator determinante para a forma de cada indivíduo ser e estar no mundo.

Dois pensadores da teoria relativista são: O antropólogo Edward Sapir (1884-1939), nascido na Alemanha, mas criado nos Estados Unidos e seu aluno, o engenheiro químico norte-americano, Benjamin Lee Whorf (1897-1941). A hipótese formulada por eles leva o nome de Sapir-Worf e diz respeito à relação de uma sociedade com sua visão de mundo. De acordo com a hipótese essa visão é relativa a traços característicos da língua de uma determinada comunidade. Cada povo vê e capta a realidade a sua volta por meio de classes gramaticais e semânticas de sua língua. Há desta forma, uma interação entre linguagem e cultura. “De fato, ‘o mundo real’ é em larga escala construído de forma inconsciente com base nos hábitos do grupo”. [1]

Assim, é possível perceber que o fato de Kaspar Hauser não ter sido inserido na vida social como qualquer outro ser humano o impossibilitou de desenvolver, não apenas a linguagem, mas também a consciência de si. Quando encontrado ele não possuía noção de identidade, visto que é no contato com o outro que o ser humano se constrói e percebe-se como ser único e, ao mesmo tempo, como parte do mundo que o cerca. Consequentemente, mesmo depois que aprendeu a andar, a sentar-se à mesa e a falar, toda complexidade que envolvia a língua, seus signos, símbolos e até própria vida também não lhe fazia sentido como fazia para os outros seres humanos. De acordo com Sapir: “A linguagem é uma grande força de socialização, provavelmente a maior que existe. Com isso não queremos dizer apenas o fato mais ou menos óbvio de que a interação social dotada de significado é praticamente impossível sem a linguagem, mas que o mero fato de haver uma fala comum serve como um símbolo peculiarmente poderoso da solidariedade social entre aqueles que falam aquela língua”.[2]

O ser humano ao nascer é, até certa idade, completamente dependente da mãe. Neste sentido, o sujeito que não tem contato com outras pessoas, isto é, que não tem quem lhe cuide, alimente, ensine a andar, a falar, certamente, este ser não sobreviverá. De acordo com o filme, Hauser sobreviveu, porque alguém o alimentou durante os anos em que ficou isolado. Sob esta perspectiva, o homem não vive sozinho, é um ser que precisa do outro para viver e que está em constante construção, o que significa que, ao longo de toda a sua vida, está apto a aprender.






[1]  [Sapir, “The status of linguistics as a science”, 1929]
[2]  [Sapir, language, 1921]

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Violência em São Paulo

As desigualdades sempre foram marcantes na sociedade brasileira. É sabido que as discrepâncias sociais, a segregação e a concentração de renda nas mãos das minorias são potenciais fatores de violência. Na Cidade de São Paulo, os contrastes são aviltantes. Na zona sul da capital, dois mundos diferentes coexistem no mesmo espaço. O Morumbi e o complexo do Paraisópolis.

Segundo um estudo publicado no portal da prefeitura de São Paulo, Paraisópolis é considerada a segunda maior favela da cidade, com 55.590 pessoas e 20.832 imóveis. O estudo revela que boa parte das casas ali é feita de alvenaria e possui de dois a três cômodos. No Morumbi, luxuosos prédios com apartamentos requintados, (com valores que variam entre R$ 1.406 e R$ 9.459 o m²), além de grandes mansões compõem a distinta paisagem.

Na favela, a educação precária forma indivíduos despreparados, com poucas chances no mercado de trabalho e na vida. Em bairros como o Morumbi, as escolas particulares e as diversas atividades extracurriculares capacitam os jovens para as melhores universidades do país. Sem emprego, sem dinheiro e sem oportunidade, o caminho para muitos moradores das favelas é o da criminalidade. Os ricos tornam-se seus reféns.

O Morumbi vive o ápice da violência. Os assaltantes espreitam suas vítimas nos faróis da avenida Giovanni Gronchi e nos portões de suas mansões. De acordo com moradores falta policiamento na região. O problema, no entanto, é muito mais complexo.

As conseqüências desta disparidade são inevitáveis. Não se pode acabar com a violência sem antes criar condições favoráveis à educação, saúde, lazer, cultura e às necessidades básicas do indivíduo. Enquanto estas lacunas não forem preenchidas, os crimes, o medo e a insegurança continuarão fazendo parte do cotidiano do Paraisópolis, do Morumbi e de todos os brasileiros.