quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Televisão: espelho do telespectador?

Imagem Google
Os programas de TV são pautados a partir da "vontade" da audiência. O público é o termômetro. Se não tem quem vê, não tem por que mostrar.
Por Sueli Melo

O filme "Heroi por Acidente" coloca em pauta uma discussão interessante: a forma como a mídia se apropria da realidade e o modo como o público reage diante disso. De um lado está a busca desenfreada pela audiência, do outro, pessoas sedentas por histórias que as façam sentir algo que as tire de suas rotinas. Pode ser indignação, admiração, encantamento. Estes dois últimos sentimentos envolvem a película em questão ao trazer a mensagem do heroi. 

Na verdade, trata-se da construção de um heroi. As pessoas gostam de herois. A impressão que dá quando se tem uma discussão como esta é a de que os telespectadores se sentem bem quando enganados. Têm prazer em criar, inventar realidades com a ajuda dos meios de comunicação. Neste caso, a TV é mais poderosa do que outros veículos. Ela conta uma história, o povo acredita. Mesmo quando a televisão não inventa o que veicula é uma construção, porque o que é apresentado é feito de recortes, de enfoques muito bem pensados. Mas se a TV mostra é porque tem quem vê e gosta de ver.

Há na audiência (público) uma necessidade de projetar seus sonhos, ambições, frustrações, raiva no outro, no personagem, como se suas vidas fossem desprovidas de sentido ou importância. É aqui que está a questão central desta discussão: as pessoas se veem nos personagens de TV, sejam eles reais ou não. E os produtores, os donos do jogo, sabem disso. E se aproveitam. E aí não tem mais volta. O que foi mostrado não será apagado. Nem a TV nem o povo voltará atrás. 

No filme, quando a ambiciosa repórter Gale Gayley, que é capaz de tudo por uma matéria impactante, descobre que, na realidade, o heroi não é quem diz ser, ela percebe que o melhor é deixar tudo como está. É assim que funciona a mídia. Afinal, quem mais sairia perdendo, se a verdade viesse à tona? O personagem criado? O público? Ou a TV? Certamente a televisão. Porque o que entra em cena nesse momento é a credibilidade e a ética. Mas será que admitir um erro de apuração, um erro grave como esse seria tão prejudicial assim para ambos os lados? Pelo visto sim. Melhor maquiar, passar por cima e continuar na busca incessante de outros personagens, novas histórias que despertem sentimentos bons ou ruins nas pessoas, mas que continuem colocando a audiência nas alturas. Infelizmente, é isso que importa em um mundo cheio de gente que prefere ser conduzida a questionar, que precisa de herois e vilões para sentir que a vida não é vã. Mesmo que tudo não passe de invenção, pura e simples. 


Sinopse 

O filme, dirigido por Stephen Frears, conta a história de Bernie Laplante, papel de Dustin Hoffman, um homem aparentemente nada amigável com problemas na justiça, divorciado e pai de um menino de 10 anos, que um dia salva 54 passageiros, vítimas de uma acidente de avião. No meio da confusão ele perde um pé de sapato e desaparece. A repórter de TV Gale Gayley, intrepretada por Geena Davis, é uma das pessoas salvas por Laplante. A fim de descobrir a identidade de seu heroi e com isso produzir uma grande reportagem, ela e o canal onde trabalha oferecem um milhão de dólares a quem encontrá-lo. Acontece que Bernie doou o sapato que restou para um desabrigado chamado John Bubber - Andy Garcia -, um homem bonito e carismático, que se apresenta como o tal heroi anônimo para embolsar o dinheiro, mas acaba conquistando o coração de toda a cidade.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Jovem poetisa palestina fala sobre sua arte

Farah Chamma no ECLA
Farah Chamma tinha apenas 12 anos quando começou a escrever poemas. Tinha a atividade como um hobby para expressar coisas do seu coração adolescente. Aos 14, foi convidada para subir ao palco e declamar um de seus textos. Mudou a temática e percebeu a importância de sua arte ao ver alguém na plateia chorar. Encantou-se pela poesia falada e não parou mais de se apresentar desde então. A jovem poetisa esteve no último dia 27, no ECLA – Espaço Cultural Latino Americano, em São Paulo, declamou poesias e conversou com o público sobre seu trabalho. O evento foi promovido em parceria com o ICArabe, como parte da programação dos 10 anos do Instituto.

De família palestina, Farah nasceu em Dubai em 1994 e cresceu declarando-se palestina, mesmo sem nunca ter ido à região. Em algum momento, ela começou a refletir sobre o que é ser palestina. “Em Dubai há prédios bonitos. Não tem conflito. Não tem a questão palestina. Mas tem essa realidade, quando você nasce lá, não pode ter um passaporte [para ir à Palestina]. Mas descobri que não preciso ser palestina para me envolver. Senti que lendo e escrevendo eu vou entender melhor a causa, isso vai me encorajar. Lembrar as pessoas que há um conflito, que tem um povo que está sumindo de um jeito ou de outro, oprimido e muitos não podem voltar.”

A designação “palestina” que aparece ao lado do nome nas apresentações que faz é, segundo Farah, uma forma de resistência. “Isto é para mostrar que o povo existe, que tem gente escrevendo sobre o que está acontecendo. Muitas pessoas no mundo só têm ideias muito vagas sobre a questão”. Neste cenário, a poesia, para ela, entre outras coisas, surge como um meio de transformar acontecimentos ruins em algo positivo, não só da Palestina, mas também de qualquer outro lugar. “Se vejo que tem alguma coisa errada, então vou escrever sobre isso.”

Poesia falada

A poetisa de percepção aguçada, que está entre os mais jovens membros da Poeticians (grupo de poetas e escritores do Oriente Médio), aprendeu que a poesia escrita não é a mesma que se declama. “É muito diferente, tudo muda. Não são só as palavras, é o corpo que começa a declamar”. Esta forma de se expressar, de acordo com ela, é mais forte, transmite mais emoção. Além disso, Farah notou também que as pessoas se interessavam muito por assuntos políticos e sociais. Hoje, não se vê fazendo outra coisa. “Sinto-me responsável. Sinto que posso fazer muito com a poesia”, acredita.

A jovem estudante de Filosofia e Ciência Política na Paris-Sorbonne de Abu Dhabi faz parte de um grupo que organiza eventos toda semana em Dubai para encorajar os jovens estudantes da universidade a falar sobre diferentes assuntos. “Meu objetivo agora é chamar a atenção para a cena da poesia falada em árabe. Mas também quero aprender mais línguas.”

Um vídeo postado por Farah no youtube, no ano passado, no qual ela declamava um poema em língua árabe, que teve mais de duzentos mil acessos, foi o que a fez perceber que havia uma lacuna a ser preenchida no Mundo Árabe. “Lá não há poesia falada, não há meninas que fazem isso. Tem mais homens poetas, não tem poetisas. Agora tenho outro motivo para escrever. As pessoas têm medo de falar, de se expressar. Os meus pais têm medo por mim, falando sobre temas polêmicos. Senti também que há uma ausência na língua árabe, ela está sumindo, comecei a escrever mais, parei um pouco com o inglês.” Segundo ela, a língua inglesa é falada por 90% da população de Dubai. O árabe clássico, utilizado na escrita, acrescenta, é mais difícil que o idioma falado, o que exige mais atenção e várias revisões nos textos.

Viagens

Conhecer, ler, tentar entender e depois escrever sobre os problemas de cada lugar no idioma local foi um caminho que a poetisa encontrou para derrubar as barreiras entre ela e o público. Foi assim na França – onde escreveu sobre o véu - e no Brasil. “Quando cheguei aqui, eu não falava e não entendia o idioma. Queria conversar com as pessoas, não conseguia. Passei um ano estudando a língua e escrevi um poema [Caixas] em português para começar e ver o que podia fazer.”  

Farah diz que se sente em casa no Brasil. Morando em Santos, ela consegue andar pelas ruas, conhecer pessoas, conversar, trocar experiências. Mas alguns pensamentos estereotipados de boa parte dos brasileiros sobre o Mundo Árabe são motivos de tristeza para ela. “Não sei se é por causa da televisão, mas tem alguma coisa que não funciona aqui. São ideias muito superficiais sobre um Mundo Árabe enorme. E isso é muito triste”, lamenta.

Por outro lado, há pessoas de seu país que veem o Brasil como a terra da felicidade, de pessoas alegres que gostam de dançar e jogar futebol. “É uma visão muito mais positiva do que negativa”, garante.

Além de França e Brasil, Farah, já fez apresentações no Marrocos – onde teve problemas para entrar no país, tendo que desmarcar a palestra. Na ocasião, conta ela, os jovens marroquinos se manifestaram nas redes sociais e até a TV local falou sobre o assunto. Após um mês, a situação foi resolvida e ela conseguiu enfim realizar seu trabalho no país. Viajar para entender o mundo, levando na bagagem sua poesia é outro objetivo de Farah. “Quando comecei a viajar, percebi que é muito mais difícil entender as coisas de longe. Tenho que viver para entender. Tenho sorte de poder viajar. Estou muito feliz e não quero parar”, finaliza. 

Texto postado originalmente no site do Instituto de Cultura Árabe: ICArabe

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Roda viva: jornal impresso versus mídias digitais


Imagem Google
O mundo já não é mais o mesmo, o jornalismo impresso também não. Na verdade nunca o foram. A roda viva, cantada por Chico Buarque, sempre existiu e sempre carregou tudo “pra lá”. A questão é: onde fica o “lá”, quando se fala em mídia impressa tradicional e a crise que enfrenta diante das mídias móveis? No futuro? No esquecimento? Numa outra realidade ou forma de se expressar, na qual o antigo e o novo possam caminhar juntos sem que um prejudique o outro? Perguntas não faltam nesta importante discussão.

    
Imagem Google
A roda viva girou e numa das voltas trouxe a tecnologia, um universo inteiro de possibilidades de comunicação e transmissão de informação. As mídias móveis ainda são uma novidade e toda novidade causa encantamento enquanto o velho é posto de lado. É o caso do jornal impresso, coitado, que tenta sobreviver nesse contexto de instantaneidade, no qual o leitor não precisa esperar até o dia seguinte para saber as notícias do dia. A internet atravessa o mundo em segundos e traz os acontecimentos em tempo real, que podem ser vistos pelo celular ou pelo tablet. Competição cruel para a mídia impressa. De fato, carregar um aparelho de celular no bolso ou na bolsa é muito mais prático que andar para cima e para baixo com um monte de papel de cheiro pouco agradável – o bom e velho jornal.

O debate toma outro rumo, no entanto, quando entra na pauta a qualidade do conteúdo. O que se lê na internet nem sempre pode estar vinculado a fontes confiáveis, já que possibilita a qualquer pessoa, jornalista ou não, criar conteúdo de informação. O jornal impresso, por sua vez, é mais completo e confiável. Tem tradição, credibilidade. Mas será que é possível salvá-lo da tragédia que se anuncia aos quatro ventos? Pode ser que sim e pode ser que não. O que é certo dizer, no entanto, é que o homem, um ser do seu tempo, inconstante, mutável, carrega em si a capacidade de se reinventar e jornalismo é feito por homens, o que implica pontos favoráveis ao sim, é possível salvá-lo.

Tal reinvenção será imprescindível para que o jornal impresso saia da crise,  encontre-se e volte a viver como nos bons tempos idos. Pode ser que esse reinventar-se tenha a ver com a forma de escrita e de edição com o objetivo de atrair os jovens, incentivá-los a conhecer esse outro mundo, o mundo do impresso e suas particularidades. O legado do jornalismo escrito em papel terá mais chance de ser passado adiante, se os jovens de hoje tiverem entendimento da importância desse meio para a sociedade.

É inegável a força das mídias móveis, assim como não há dúvidas que jornal impresso morre um pouquinho a cada dia desde o surgimento destes aparelhos. Mas a roda do mundo não vai parar de girar. E o fazer jornalístico do impresso precisa girar com ela, atentar-se às mudanças, mudar o que precisar ser mudado. Além disso, deve saber existir em harmonia com o novo de uma maneira que ambos reconheçam suas diferenças e, a partir destas, (re) construam um jornalismo de qualidade, digno de atravessar o tempo. 


quarta-feira, 21 de maio de 2014

O que será que será?

O mundo está de pernas para o ar. Os contrastes espalham-se em todos os cantos do planeta. De um lado a ganância, a ambição desmedida, a corrupção, pessoas vendendo a alma para o diabo em troca de poder e dinheiro. Do outro, miséria, violência, abandono, descaso, ignorância, alienação. 

Acredito que chegamos a um momento crítico de nossa existência. Ao ápice da miséria humana. Da falta de cuidado com o outro, não só com aqueles que nos cercam, que fazem parte de nossa vida, mas também com as pessoas desconhecidas, com as pessoas que ainda nem nasceram. Não há respeito. O tempo passa em ritmo acelerado. O planeta grita por socorro. 

A natureza sofre e vê a raça humana caminhar para o abismo. Ela, no entanto, reponde com a mesma agressividade os danos sofridos. O poder, o lugar é dela, não nosso. Nós apenas deveríamos viver em comunhão com ela, mas isso não acontece. Pelo contrário, a destruímos dia a dia. Esta é uma característica forte do ser humano, a destruição, que ocorre pela falta de limites. Degradamos nosso planeta com guerras pelos mais variados motivos, com egoísmos, com uso desmedido e irresponsável de seus recursos que deveriam ser preservados para as futuras gerações. 

Os poderosos são os maiores culpados. Os miseráveis sofrem as consequências a curto prazo. No longo prazo, no entanto, todos pagarão por tamanha irresponsabilidade e desamor. Muitos não entendem que tudo é vivo, como a terra, por exemplo, que é capaz de fazer uma semente brotar, crescer, tornar-se árvore e dar frutos que matam a fome do mundo, ou pelo menos deveriam. Em meio às disparidades sociais, uns desperdiçam, outros morrem de fome. Com pouca ou quase nenhuma esperança, homens, mulheres e crianças padecem pelos limbos de terras secas. Sofrem com o abandono. Morrem à míngua. E perdida num oceano de insensibilidade a humanidade segue por um caminho, possivelmente, sem volta. Pois, talvez seja bem tarde, infelizmente, para recomeçar e reconstruir uma nova consciência em um universo cada vez mais veloz e automatizado como este em que experimentamos hoje. 

sábado, 10 de maio de 2014

A arte de saber cuidar

Imagem Google
O universo sentimental de qualquer pessoa é o reflexo do que absorve no decorrer de sua infância. Assim, se uma criança recebe amor na medida certa, será um adulto mais afetuoso e mais bem preparado para a vida. O contrário também é verdadeiro, ou seja, se ela não é amada, dificilmente saberá amar. Mas, afinal de contas, qual é a dose certa do amor?

Desde os primeiros passos até a conquista da independência de um indivíduo é de suma importância a participação e interação entre pais e filhos.Vivemos uma vida agitada, estressante e, em muitos casos, nossas relações são superficiais, o que afeta profundamente a qualidade da nossa convivência. É preciso, antes de tudo, ter cuidado no cuidar. Ausências constantes e desatenção na primeira fase da vida podem gerar sérias consequências no futuro, já que transmitiremos somente aquilo que recebemos.

“Fundamental é mesmo o amor”, diz o verso da bela canção Wave de Tom Jobim. Realmente, não é possível, pelo menos para a grande maioria das pessoas, existir sem este sentimento tão imensurável que se apresenta de várias formas, tais como respeito, solidariedade, amizade. Se algo fora do normal acontece durante a formação do caráter de uma criança, como um ato de violência, por exemplo, essa base se perderá e será difícil recuperá-la. É muito tênue a linha que separa o bom e o ruim dentro de cada um.

Todo mundo/ou quase todo mundo quer ser feliz, encontrar alguém, constituir uma família e viver em paz. Contudo, a realidade não segue um roteiro com começo, meio e fim como um filme de amor. Uma vida perfeita é ilusão. A condição humana não permite tal feito. Porém, pode-se alcançar a tão sonhada felicidade em vários momentos da vida, mas para isso há que se estar bem consigo, tarefa difícil para quem trás no coração o vazio deixado pelo desamor.
O amor em demasia, aquele no qual há o exagero na proteção, torna as pessoas frágeis e dependentes, ao passo que a falta dele as torna inseguras e amargas. É preciso buscar o equilíbrio nas relações. Ainda que seja difícil, devido as incertezas do caminho, não é impossível. Saber dar liberdade ou dizer não no momento certo denota o verdadeiro sentido deste sentimento tão necessário para nossa existência.





quarta-feira, 7 de maio de 2014

Televisão: espelho do telespectador?

Imagem Google
Os programas de TV são pautados a partir da "vontade" da audiência. O público é o termômetro. Se não tem quem vê, não tem por que mostrar.

O filme "Heroi por Acidente" coloca em pauta uma discussão interessante: a forma como a mídia se apropria da realidade e o modo como o público reage diante disso. De um lado está a busca desenfreada pela audiência, do outro, pessoas sedentas por histórias que as façam sentir algo que as tire de suas rotinas. Pode ser indignação, admiração, encantamento. Estes dois últimos sentimentos envolvem a película em questão ao trazer a mensagem do heroi. 

Na verdade, trata-se da construção de um heroi. As pessoas gostam de herois. A impressão que dá quando se tem uma discussão como esta é a de que os telespectadores se sentem bem quando enganados. Têm prazer em criar, inventar realidades com a ajuda dos meios de comunicação. Neste caso, a TV é mais poderosa do que outros veículos. Ela conta uma história, o povo acredita. Mesmo quando a televisão não inventa o que veicula é uma construção, porque o que é apresentado é feito de recortes, de enfoques muito bem pensados. Mas se a TV mostra é porque tem quem vê e gosta de ver.

Há na audiência (público) uma necessidade de projetar seus sonhos, ambições, frustrações, raiva no outro, no personagem, como se suas vidas fossem desprovidas de sentido ou importância. É aqui que está a questão central desta discussão: as pessoas se veem nos personagens de TV, sejam eles reais ou não. E os produtores, os donos do jogo, sabem disso. E se aproveitam. E aí não tem mais volta. O que foi mostrado não será apagado. Nem a TV nem o povo voltará atrás. 

No filme, quando a ambiciosa repórter Gale Gayley, que é capaz de tudo por uma matéria impactante, descobre que, na realidade, o heroi não é quem diz ser, ela percebe que o melhor é deixar tudo como está. É assim que funciona a mídia. Afinal, quem mais sairia perdendo, se a verdade viesse à tona? O personagem criado? O público? Ou a TV? Certamente a televisão. Porque o que entra em cena nesse momento é a credibilidade e a ética. Mas será que admitir um erro de apuração, um erro grave como esse seria tão prejudicial assim para ambos os lados? Pelo visto sim. Melhor maquiar, passar por cima e continuar na busca incessante de outros personagens, novas histórias que despertem sentimentos bons ou ruins nas pessoas, mas que continuem colocando a audiência nas alturas. Infelizmente, é isso que importa em um mundo cheio de gente que prefere ser conduzida a questionar, que precisa de herois e vilões para sentir que a vida não é vã. Mesmo que tudo não passe de invenção, pura e simples. 


Sinopse 

O filme, dirigido por Stephen Frears, conta a história de Bernie Laplante, papel de Dustin Hoffman, um homem aparentemente nada amigável com problemas na justiça, divorciado e pai de um menino de 10 anos, que um dia salva 54 passageiros, vítimas de uma acidente de avião. No meio da confusão ele perde um pé de sapato e desaparece. A repórter de TV Gale Gayley, intrepretada por Geena Davis, é uma das pessoas salvas por Laplante. A fim de descobrir a identidade de seu heroi e com isso produzir uma grande reportagem, ela e o canal onde trabalha oferecem um milhão de dólares a quem encontrá-lo. Acontece que Bernie doou o sapato que restou para um desabrigado chamado John Bubber - Andy Garcia -, um homem bonito e carismático, que se apresenta como o tal heroi anônimo para embolsar o dinheiro, mas acaba conquistando o coração de toda a cidade.

domingo, 27 de abril de 2014

Artigo sobre o filme "O povo contra Larry Flynt"

Imagem Google
As questões discutidas no filme "O povo contra Larry Flynt" no contexto da sociedade norte-americana da década de 1970, sempre existiram e sempre existirão em qualquer tempo; e cenário social. Conservadorismo, valores morais, liberdade de imprensa e de expressão são assuntos que geram muita polêmica quando vêm à tona. 

O mundo, na verdade, está impregnado de moralidades, muitas vezes, falsas. Em toda parte, seja nos Estados Unidos, no Brasil ou em qualquer outro lugar do mundo, há grupos sociais organizados, dispostos a julgar e condenar atos que consideram fora dos padrões "normais", aprendidos ao longo da vida. O problema é que esses valores, quase sempre, só existem nos discursos hipócritas de pessoas que preferem esconder o que realmente são a revelar-se. 

A pornografia, no caso do filme, o sexo, a falta de pudor em relação ao tema é o grande "pecado" que fere profundamente as "pessoas de bem". Indivíduos que seguem uma religião, que têm princípios. Ora, mas isso são coisas que todo mundo pratica, então por que condenar? Talvez se as ações fossem mais claras, se a liberdade fosse algo real, as sociedades pudessem ser menos "fingidas", mascaradas. 

Em outra ponta, está a liberdade tanto de expressão como de imprensa. Elas devem existir sob qualquer condição. Os limites deveriam ser parte do bom senso de cada ator social. Porém, os exageros, aqueles que realmente ferem deveriam ser punidos com leis severas desde que não interfiram no direito de falar, opinar, criticar das pessoas.

O homem é um ser contraditório. Ele condena, mas também faz. Ele julga o outro, mas esconde que no fundo age igual ou pior. Ao apontar os erros desse outro, ele encobre os seus e sente-se aliviado de não ser ele o réu da vez. 

Hoje, mesmo com toda a internet e o livre acesso aos produtos inclusive os sexuais dentro do universo virtual, o escândalo como o de Larry Flynt ainda provocaria grandes embates e caçadas "às bruxas", indivíduos que ousam mostrar o que a maioria oculta. O homem de qualquer sociedade, de qualquer época será sempre o mesmo, assim como suas ações.

Sinopse: 
O filme "O povo contra Larry Flynt" narra a história do empresário Larry Flynt, o homem que explicitou o mundo da pornografia por meio de sua revista Hustler, para uma conservadora sociedade norte-americana, da década de 1970. Flynt construiu um verdadeiro império, mas teve que lutar muito para vencer as muitas batalhas judiciais que se levantaram contra ele. Acabou sofrendo um atentado que o deixou paraplégico. 

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Apego: uma traição para a alma?

Imagem Google
“A Alma Imoral” do rabino Nilton Bonder, livro, que também foi adaptado para o teatro, traz à tona reflexões sobre aspectos da existência do ser humano que fundamentam o seu ser e estar no mundo como conhecemos. Por meio de regastes históricos, o autor nos leva a uma viagem por um passado bíblico, sob a perspectiva da tradição judaica, e científico representado na teoria evolucionista de Darwin. 

A partir destes dois pilares, a obra caminha em direção a dois pontos centrais: o corpo e a alma. De acordo com o autor, corpo e alma são duas forças opostas que se complementam. O primeiro representando a materialidade e a segunda, a imaterialidade. Assim, enquanto corpo, produto de um passado, atenta para a preservação das tradições como forma de dar continuidade à espécie, a alma carrega em si a predisposição para transgredir, trair. O propósito a ser alcançado por ambos, no entanto, é o mesmo: a imortalidade.        

A Bíblia e a teoria da evolução, segundo Bonder, compreendem de maneiras distintas a existência humana e os preceitos que a conduzem. Na concepção bíblica escreve ele, o homem tem acesso à dimensão de si e de sua natureza transgressora. A finalidade de seu existir, portanto, não é somente a procriação, mas também a transcendência, papel cumprido pela alma que é movimento, mudança. Essa característica transgressora da alma a faz imoral. É por meio da dessa transcendência que a alma busca a eternidade. Já o que fundamenta a teoria da evolução, de acordo com o autor, é o conceito de que é o corpo o responsável pelo comportamento e pelas ações do homem, um animal moral. O desejo primeiro desse corpo dotado de moralidade é a multiplicação. Nesta matriz, procriar é, para o homem, se aproximar da imortalidade.

Ao apresentar um cenário em que se dialoga sobre o despertar da consciência e a descoberta do nu, a tradição e a transgressão, a moralidade e a imoralidade, a traição e o apego, Bonder coloca o leitor diante de um trabalho interior de análise e questionamentos sobre a complexidade da existência humana. 

A reflexão proposta por Bonder em sua obra é uma provocação a tudo aquilo que conhecemos sobre o assunto. É um desafio bastante pertinente ao momento que vivemos. Um contexto onde tudo muda o tempo todo. Ao nos debruçar sobre as páginas de “A Alma Imoral” temos a oportunidade de olhar a vida por outro lado.  Segundo o autor, o ser humano é a tensão entre o corpo e a alma, ou seja, entre a preservação e a transgressão. Dentro deste universo podem acontecer duas formas intensas de desequilíbrio, que são a traição e o apego.

É grande relevância tentar compreender a dimensão que esta questão, do apegar-se e do trair, abrange. Conhecer mais sobre estes dois aspectos inerentes ao corpo e a alma, além de ser muito interessante, faz-se necessário para ampliarmos a visão que temos sobre o assunto. 

Não nascemos prontos para a vida, nem aprendemos sozinhos, mas com aqueles a quem chamamos de família ou àqueles que nos cuida quando crianças. Em outras palavras, nossa condição humana nos faz dependentes um do outro para existir, sobreviver e nos perpetuar. Na busca pela eternidade, de acordo com o livro, se encontra o sentido das ações do corpo e da alma. Desta forma, o apego às pessoas, aos ensinamentos, tradições e valores que elas nos transmitem, ao longo da vida, torna-se inevitável. No entanto, deparamo-nos constantemente com situações que nos colocam em descompasso com tudo isso que foi aprendido.   

A vida acontece implacavelmente dentro desse universo, de certa maneira, “trágico” e paradoxal. Ninguém está isento desses dois fatores: o apego e a traição. E o mais fantástico, escreve Bonder, é que eles estão sempre juntos. Nas palavras do autor, “não existe experiência de traição que não venha acompanhada de apego”.  

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

As belezas da Serra do Cipó

Juquinha, uma das lendas da região
Já era noite quando chegamos à pousada das Bromélias, na Serra do Cipó, em Minas Gerais. Ansiávamos por conhecer as maravilhas da região. Cachoeiras, trilhas, Estátua do simpático Juquinha, Bar do Zeca e Fazenda Cipó Velho compunham o roteiro. Para que você, caro leitor, entenda melhor sobre este lugar incrivelmente lindo vou contar um pouco de sua história. Deixo aqui também minha percepção do que vi, senti e guardei deste pedacinho de paraíso.


O porquê do nome

Fazenda Cipó Velho
A expressão Serra do Cipó é usada desde o século XIX e apareceu pela primeira vez a partir do estabelecimento da Fazenda Cipó pela família Moraes. Até 2003, o distrito de mesmo nome, que pertence ao município de Santana do Riacho, ao sul da Serra do Espinhaço, denominava-se Cardeal Mota.

Serra do Cipó- MG
Há algumas versões para a origem no nome. A mais aceita o relaciona às curvas do rio Cipó que nasce encachoeirado, desce a serra e segue em curvas por uma grande baixada arenosa. Após esse percurso, ele se torna pedregoso, mas continua encachoeirado e serve de moldura para as corredeiras da Cachoeira Grande. Outra possibilidade associa o nome à quantidade de cipós nos cerrados, matas secas e vegetações da região.



Serra do Cipó- MG 
Alguns estudiosos acreditam que “cipó” era um modo errado de se falar e escrever “iapó”. A expressão em tupi-guarani quer dizer “rio que alaga” e era o nome de um rio situado ao norte do Paraná. Entre os séculos XVIII e XIX era grande o tráfego de tropeiros na área correspondente ao sul do país e Minas gerais. O rio Cipó possuía grandes várzeas de inundação que quando alagavam deixavam os tropeiros ilhados, já que não havia pontes. De tanto ser repetido, o nome cipó acabou ganhando autenticidade.

Breve histórico da região

Serra do Cipó- MG
Os contornos bem desenhados da Serra do Cipó foram amplamente usados como itinerário pelos bandeirantes paulistas que iam de São Paulo a Minas Gerais em busca de ouro e pedras preciosas. Seguiam pela Vila do Serro Frio, hoje, município do Serro e Arraial do Tejuco, atual cidade de Diamantina. Há indícios de que homens primitivos viveram ali. As marcas de pinturas rupestres encontradas em várias grutas e paredões atestam sua presença na região há mais de 12 mil anos. Devido a isso, segundo estudos, o acervo ganhou status de importante sitio arqueológico.O lugar ainda guarda vestígios de uma antiga estrada de pedras construída por escravos no período da colonização, atual Trilha dos Escravos. Por esse caminho passavam os tropeiros com suas mulas abarrotadas de ouro.

Durante o século XIX, viajantes da Europa, atraídos pelas lindas e ricas paisagens naturais da região, percorreram-na, a fim de conhecer e estudar sua fauna e flora. Por volta dos anos 50, após as realizações das primeiras conferências de turismo e da publicação de reportagens e estudos, mostrando sua beleza singular, Serra do Cipó começou a ser apresentada como ponto turístico. Há trabalhos científicos de importantes estudiosos, como Peter W. Lund e Eugene Warming e Saint Hilarie sobre o inestimável valor da região. Além da flora, destaca-se também a qualidade das águas.

O Parque Estadual da Serra do Cipó foi criado em 1975 e já em 1984, por conta de sua biodiversidade, tornou-se Parque Nacional e abrange uma área de 27.600 hectares. As Justificativas para a concepção do parque foram: a proteção da fauna e da flora; proteção da bacia de captação do rio Cipó e a preservação do cenário local, como cachoeiras, paredões de escaladas e trilhas.

O que experimentei

Fazenda Cipó Velho
Pois bem, viver é aventurar-se. Há várias formas de praticarmos este verbo e uma delas é por meio da viagem. Paisagens misturadas a tantas vozes, cantorias, olhares, sorrisos e gargalhadas em forma de recortes congelam na nossa memória. É como uma fotografia que não se pode rasgar, deletar, e que jamais amarela com o tempo porque é uma fotografia imaterial. Um retrato de momentos vivenciados, interpretados e guardados de diferentes maneiras nas lembranças de cada um. Cada espaço visitado, cada pequeno caminho trilhado, cada som de passarinho, de cachoeira derramando, cada sensação vivida ajuda-nos na construção de nosso “acervo” psicológico, intelectual e emocional.





terça-feira, 24 de setembro de 2013

Um dia em Inhotim


Inhotim, MG
O tempo era instável no dia do passeio. E assim, entre um chuvisco e outro, fomos apresentados às maravilhas de Inhotim. Um lugar paradisíaco, inspirador, lindo. Ali, a bela paisagem, os sons, o cheiro de natureza, o sabor das ervas que só conhecemos desidratadas como o orégano, a hortelã, o manjericão e até o adoçante aguçam nossos sentidos.
O instituto Inhotim é um dos mais importantes espaços de arte contemporânea do mundo e fica nos arredores de Brumadinho, em Minas Gerais. Foi Idealizado pelo empresário Bernardo Paz, por volta de 1980. Mais tarde, recebeu colaborações do paisagista Roberto Burle Marx. Hoje, mais de três décadas depois, o lugar seduz pela beleza de seu rico acervo Botânico, composto de plantas raras, além de obras de arte.
O acervo artístico que abrange esculturas, instalações, pinturas, desenhos, fotografias, filmes e vídeos, conta com cerca de 500 obras de mais de 100 artistas de 30 nacionalidades distintas.
Neste espaço, o visitante escuta o som da terra
As obras permanentes foram produzidas em grande parte sob o conceito de site-specific, que se refere a obras criadas conforme o ambiente e em local determinado. Assim, o artista ao ser convidado para desenvolver um projeto em Inhotim, considera as características naturais e culturais do lugar. As obras ficam Expostas ao ar livre, nas quatro galerias: lago, fonte, mata e praça, e em ambientes fechados.

A arte de Adriana Varejão

Uma das galerias visitadas foi a da artista plástica Adriana Varejão, que é hoje um dos nomes mais importantes da arte contemporânea. Ela participou de mais de 70 exposições nacionais e internacionais, como Bienal de São Paulo, Tote Modern em Londres e MoMa em Nova Iorque.
Natural do Rio de Janeiro, a artista nasceu em 1964 e, por volta dos 17 anos, frequentou a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, EVA/Parque Lage, no Rio. Sua primeira exposição individual foi em 88, na galeria Thomas Cohn também no Rio de Janeiro. A principal fonte de produção de Adriana Varejão é a pintura, mas ela também transita entre a fotografia, a escultura e a instalação. 

Panacea Phantastica
Linda do Rosário
Na produção, a artista se utiliza de variadas fontes para alcançar o resultado desejado.
Monocromatismo, violência,
história, ruína, abstração. Ela se pauta no período colonial brasileiro, como pode ser visto na pintura dos azulejos portugueses que mostra a articulação entre as culturas lusitana e brasileira. A agressividade da matéria e a presença da dor em imagens, que chocam pela semelhança com o real, estão na arte de Adriana Varejão. A artista encontra inspiração nos botecos cariocas, açougues e banheiros europeus.Na galeria em Inhotim, pintura, escultura e arquitetura trazem à tona elementos históricos e culturais nas obras Panacea Phantastica (2003-2008), Celacanto provoca maremoto (2004-2008), O colecionador (2008) e Linda do Rosário (2004). Nesta última, parte de uma parede de azulejos brancos com o interior em “carne viva”, com as entranhas a mostra, provoca as mais variadas sensações no observador. O desabamento do Hotel de mesmo nome – Linda do Rosário -, no Rio de Janeiro, em 2002, quando um casal foi encontrado morto sob as ruínas das paredes azulejadas, serviu de inspiração para o trabalho. Panacea Phantastica: trata-se de um conjunto de azulejos com imagens de 50 tipos de plantas alucinógenas de diferentes partes do mundo. A obra, que foi criada de forma a se adaptar a qualquer arquitetura, tornou-se um banco e fica na entrada do pavilhão, num espaço que serve, ao mesmo tempo, para contemplação e convivência. Um texto em um dos azulejos faz uma analogia entre efeitos alucinógenos das plantas e alterações na percepção causadas pela arte.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Unindo música e cidadania, projeto social transforma a vida de crianças e adolescentes da periferia de São Paulo

Muitos jovens sonham em se tornar músicos, fazer parte de uma banda, ser artistas. Mas, para que seus anseios tenham possibilidades de realização, é preciso aprender a tocar um instrumento. No Brasil, estudar música é privilégio de poucos. A grande maioria vive às margens desse universo. Neste contexto, levando em conta a realidade do País, iniciativas que têm por objetivo inserir essa parcela da sociedade no ambiente musical fazem a diferença.

Engajada no propósito de contribuir para um mundo mais justo, a Associação Praticatatum, idealizada por Arlen Ribeiro, vem, desde 2008, trabalhando para desenvolver, por meio da música, a sensibilidade, a cidadania e as habilidades artísticas e intelectuais de crianças e adolescentes da periferia de São Paulo.

O projeto surgiu como expansão do curso de percussão, iniciado em 2002 no Programa I.D.E.A.L, do Educandário Dom Duarte – uma das unidades de atendimento social da Liga Solidária, na zona oeste de São Paulo.

O nome Praticatatum é decorrente da tentativa de expressar, através das sílabas, o som de alguns instrumentos de percussão como: bumbos, surdos, caixas e pratos, (PRA) é a tradução do som da apogiatura na Caixa, (TI) um leve toque no prato, (CA) um toque simples na caixa, (TA) outro toque simples na caixa mais forte e (TUM) uma batida no bumbo ou surdo.    

Cerca de 300 estudantes, entre 6 e 21 anos, participam do projeto. Eles aprendem percussão, musicalização infantil (xilofone, canto-coral e flauta-doce), violão, guitarra, contrabaixo, teclado, instrumentos de sopro e cordas, além da discotecagem com tecnologia musical informatizada.

Os alunos recebem informações musicais diversas, que vão da música popular à erudita, buscando referências, não somente dentro das salas de aulas, mas também frequentando eventos, shows e concertos musicais nos teatros da cidade de São Paulo.

Alguns desses adolescentes que se conheceram no projeto começam a montar as primeiras bandas e até já tocam em eventos. É o caso de Gabriel Alves, 18, e Leonardo Maia, 16, que formaram a banda “4 Elementos”, há quase um ano, com o intuito de tocar músicas diversas de artistas conhecidos e também composições próprias. Além deles, outros três estudantes completam o grupo. “Sempre amei música, éum sonho e um objetivo que quero alcançar”, afirma Guilherme Zacarias, guitarrista. Eles tocaram na festa junina do Educandário e já têm apresentação marcada para o dia 18 de julho no Céu Uirapuru.

Leonardo Maia faz guitarra e também é integrante da banda “Padawan”. Ele fala com entusiasmo sobre o trabalho que vem realizando ao lado dos amigos. “É realmente muito boa a sensação que as bandas  proporcionam. Elas são, na verdade, uma extensão do Praticatatum, mas só que agora de um jeito mais nosso.” Em uma garagem cedida pelo pai de um dos estudantes, os adolescentes passam horas ensaiando. Eles têm instrumentos próprios e conseguiram, emprestado do projeto, o equipamento de som.

Aluno há 4 anos, Gabriel Alves diz que descobriu o que realmente gosta e quer fazer no futuro. “No Praticatatum encontrei a música, que é a minha vocação, e também conheci lugares e pessoas. Com certeza quero seguir a carreira de músico, não consigo me ver fazendo outra coisa. A música sempre fez parte da minha vida”, diz o contrabaixista.

Já Renato Galvão, 18, que toca bateria na banda “Padawan”, revela que não só fez amigos, mas também viu surgir, por meio da música, uma nova perspectiva para enfrentar os problemas pelos quais passava, quando ingressou há 3 anos e meio no Praticatatum. “O projeto acrescentou muitas coisas positivas na minha vida. Através dele, conheci o curso que faço hoje, a musicoterapia. Era um momento muito difícil para mim, psicologicamente. Acredito que os amigos que ganhei lá e a música me ajudaram a melhorar, me fizeram bem”. Renato cursa o primeiro ano da faculdade e já tem planos de fazer uma especialização na área que escolheu seguir.

Para Arlen Ribeiro, ver esses jovens seguirem seus rumos na música, a partir do que aprenderam no Praticatatum, é um reconhecimento ao projeto. Ele ressalta a importância da música no desenvolvimento profissional e pessoal dos estudantes: “O conhecimento musical permite melhorar a concentração, o respeito mútuo, o trabalho em grupo, o desenvolvimento da coordenação motora, a percepção auditiva, o pensamento crítico e o contato com uma realidade repleta de manifestações culturais. Esses jovens talentos realizam um trabalho admirável. É muito importante para eles serem reconhecidos e prestigiados também na região onde vivem.”.


sexta-feira, 24 de maio de 2013

Sobre verdades, mentiras e o universo das relações humanas


Instigante, perturbador, intenso. Essas três características podem definir de forma sucinta mais um thriller de Harlan Coben. O prestigiado autor de “Cilada” e “Não conte a ninguém”, entre outros, surpreende mais uma vez com “Desaparecido para sempre”. São 320 páginas de puro suspense. Lançado no Brasil em 2009 (Editora Arqueiro), o livro já vendeu mais de 40 milhões de exemplares em todo o mundo. Do início ao fim, o leitor é levado a experimentar um clima de mistério que se renova a cada final de capítulo. E quando se pensa que os acontecimentos vão seguir determinado rumo, engana-se. A narrativa é uma constante de reviravoltas, na qual nada é o que parece ser.
Harlan Coben é o único escritor a receber três prêmios da literatura americana, a chamada trinca de ases: o Anthony, Ahamus e o Edgar Allan Poe, pelos livros da série Myron Bolitar. As obras do autor já foram traduzidas para 40 línguas. Na França, Coben é conhecido como “o mestre das noites em claro”. O livro “Não conte a ninguém” virou filme e foi premiado, tendo como protagonistas Kristin Scott Thomas e François Cluzet. A película está disponível no Brasil em DVD.

A trama

            A história é contada em primeira pessoa por Will Klein. Ele mora em Nova Jersey e está com a mãe nos últimos momentos de vida. Em meio ao clima de tristeza, ele descobre que o irmão mais velho, Ken, acusado de estuprar e assassinar a jovem Julie Miller há 11 anos, está vivo. Ele esteve foragido, desaparecido durante todo esse tempo. Antes de morrer, Sunny, a mãe, faz a revelação. A família preferia acreditar que ele estava morto do que na possibilidade de sua culpa. A partir desse momento, o suspense toma conta da narrativa.
Embora o tema esteja relacionado a um acontecimento passado, ele é narrado de forma linear. O autor monta seu texto numa linguagem informal, com diálogos rápidos, diretos e, por vezes, sarcásticos. Em certos momentos, Will conversa como se estivesse frente a frente com o leitor, ou na internet, com interferências, quando quer enfatizar algo. Isso traz uma sensação de proximidade com a história.
A cada capítulo, uma surpresa. Uma nova descoberta que pode ser verdadeira ou falsa para os personagens envolvidos e novas informações para o leitor. Um bom exemplo disso é a revelação de que Julie havia sido namorada de Will. Ele tem verdadeira adoração pelo irmão desaparecido.
            Uma personagem importante e que e é responsável por ótimos momentos do livro é Sheila Rogers. Aqui está uma das maiores surpresas do thriller. Sheila é uma jovem de olhos verdes, muito bonita e zelosa, a quem Will ama apaixonadamente. No entanto, o que a moça tem de beleza tem de enigmática. Ela não gosta de falar de seu passado. Carrega muitos segredos. Acontece que, de repente, Sheila desaparece misteriosamente. Suas digitais são encontradas na cena de um crime e nada na cabeça de Will faz sentido. 
            Squares é professor de ioga e ex-partidário do nazismo. É o melhor amigo de Will. Em meio a essa teia de incertezas, o iogue conhece muita gente influente e tem acesso aos mais diferentes ambientes. Isso ajudava na busca de informações sobre o paradeiro de Sheila. Os três trabalhavam juntos na Covernant House, organização - que existe na vida real -, e que recolhia e crianças do submundo das ruas.

 Descompasso

            Coben sabe bem ambientar um suspense. A todo momento, um novo e contundente argumento, que transforma em dúvida o que aparentava ser certeza. Isso acontece nas passagens de Joseph Pistilho, um poderoso e ambicioso agente do FBI. Durante a investigação, suas indagações a respeito de Ken e Sheila Rogers levam o leitor a desconfiar de Will. Em determinado momento Katy, irmã caçula de Julie aparece e tudo volta ao começo. Nada é certo. Tudo caminha em descompasso. O que é verdade? O que é mentira?  O autor consegue manter o suspense até a última página.
            John Asselta, o Fantasma, amigo de infância de Ken, também revela muitas surpresas ao longo da narrativa. O apelido faz uma alusão à sua pele clara. Ele é descrito como perverso, sinistro, lunático. Um homem que gosta de machucar as pessoas, de matá-las. Quando ele entra em cena é de arrepiar. É assim quando Will diz: “E ali, sorrindo pacientemente com as mãos nos bolsos, estava o Fantasma.”.
O mais surpreendente nisso tudo é que é de Asselta um questionamento profundo, reflexivo e interessante do livro: “Você conhece a teoria de que toda vez que alguém faz uma escolha divide o mundo em universos alternativos?” Ele pergunta ao perigoso Philip McGuane, seu parceiro no crime. Diante da resposta positiva, ele continua, “Muitas vezes fico imaginando se em algum desses universos nós teríamos enveredado por um caminho diferente ou se, ao contrário, nosso destino era estar aqui não importa o que acontecesse”.
            John Asselta, Sheila Rogers e Katy, sem sombra de dúvidas, protagonizam três dos melhores e mais marcantes momentos do thriller. Cada um em um momento diferente, mas todos decisivos. Momentos de revelações surpreendentemente sensacionais. Coisas que o leitor nem imagina e que modificam de forma definitiva a realidade de Will. Para saber do que se trata, tem que ler o livro. Uma coisa é certa nisso tudo: Por “Desaparecido para sempre” vale a pena passar a noite em claro. O livro é completo. Supera todas as expectativas. É envolvente. Incrível.


Ficha Técnica:
Obra: Desaparecido para Sempre - título original (Gone for Good)
Autor: Harlan Coben
Editora: Arqueiro
Páginas: 320
Formato: 16 X 23 cm
Lançamento: 2009
Preço: R$ 29.90

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Oblivion: "É possível sentir falta de um lugar que você não conhece?"

Foto divulgação - Oblivion
Após gerar grande expectativa nos amantes do gênero de ficção científica, o filme Oblivion, estrelado por Tom Cruise, astro da imperdível trilogia Missão Impossível, chega às telonas. Quem gosta de ver Cruise em ação em longas-metragens de tirar o fôlego pode estranhar esta narrativa que segue num ritmo menos intenso, diferentemente das películas que desde o início marcaram e projetaram o ator para sua carreira de sucesso. Também fazem parte do elenco Morgan Freeman, Olga Kurylenko, Andrea Riseborough e Melissa Leo.
    Com um orçamento de US$ 120 milhões, o longa é o segundo trabalho de ficção científica de grande importância do diretor Joseph Kosinsk, que também assina o roteiro ao lado de Willian Monahn. O primeiro foi Tron - O Legado, de 2010. Oblivion significa esquecimento, perda de memória, e antes de virar roteiro de cinema foi uma HQ criada por Kosinsk.
       A história se passa em 2077 e Cruise é Jack Harper, um dos últimos seres humanos do planeta. Um homem sem lembranças numa terra devastada. Nesse contexto, a lua foi destruída por alienígenas e, assim, a Terra foi arrasada por tsunamis, terremotos e pelas mãos do próprio homem, após longos períodos de guerras nucleares, tornando-se inabitável. Os sobreviventes foram viver numa colônia lunar em Saturno. Harper, ao lado da fria Victória (Andrea Rosebourogh), trabalha na manutenção dos equipamentos de segurança, os chamados drones, que protegem a terra contra possíveis ataques dos seres extraterrestes. A missão já está quase no fim, no entanto, tudo muda quando Jack salva Julia (Olga Kurylenko), uma bela e misteriosa mulher que sempre aparecia em seus sonhos, de uma nave que caiu. A partir daí, ele passa a se questionar sobre o que realmente é verdade na sua vida.
       O filme peca em alguns aspectos. Morgan Freeman, no papel de Malcolm Beech, por exemplo, está morno e um pouco apagado. Além disso, em certos momentos, a história oscila, perde o pique e fica um tanto confusa. Segundo Kosinski, Oblivion é uma grande homenagem aos filmes de ficção científica dos anos 70, como O exterminador do futuro, Alien, o 8º passageiro e 2001: Uma Odisseia no espaço. Sob esse ponto de vista, o longa tinha potencial para ir além. Por outro lado, por ser um tributo a outros filmes, pode ser que ele não tenha sido tratado com a profundidade que merecia.
      A boa notícia é que nem tudo está perdido, pois Tom Cruise, com todo seu carisma, consegue transmitir, em pouco mais de duas horas de filme, sua angústia existencial, simplicidade e até certo romantismo e nostalgia em relação à vida na Terra, como mostra o seguinte trecho: “A terra é uma lembrança pela qual vale a pena lutar”. Cruise, mais uma vez, faz jus ao status que carrega. É um ator que brilha em qualquer cenário: aventura, ação, romance, comédia sem perder o charme. É importante notar que este não é o primeiro filme de ficção científica de Tom Cruise: em seu currículo constam histórias como Minority Report, de 2000, e Guerra dos Mundos, de 2005.
      A fotografia do diretor de arte chileno Claudio Miranda, vencedor do Oscar 2013 pelo filme As aventuras de Pi, ganha destaque. As paisagens que compõem a narrativa estão pautadas nos contrastes que vão desde lugares desertos, cinzas e frios, que passam a sensação de abandono e desolação, até a linda paisagem verde e cheia de vida, para onde o personagem gosta de ir. Ali, numa espécie de cabana, de frente para um lago em meio à natureza, Jack Harper guarda livros, discos, plantas e outros objetos que encontra em meio às ruínas. O lugar é seu paraíso. As máquinas futuristas de altíssima tecnologia, como uma moto e um aerobolhas com traços leves e claros quase transparentes também ajudam a compor um visual interessante e agradável.    
       Oblivion pode não ser um filme excelente, mas também não é ruim. Há mais acertos que erros. E algo positivo que deve ser observado é que, embora essa não seja a intenção do filme, o espectador é levado a refletir sobre sua existência e sua interioridade, e em como seria difícil não lembrar, não ter recordações dos momentos que viveu, das pessoas que amou, das coisas que gostava de fazer. Ora, um homem sem lembranças é um ser vazio. Uma pessoa atenta deve se questionar como Jack se questiona: será que “é possível sentir falta de um lugar que você não conhece? Lamentar por uma época que você nunca viveu?”. Talvez nesta pergunta esteja o verdadeiro sentido de Oblivion.

FICHA TÉCNICA

Direção: Joseph Kosinski
Roteiristas: Joseph Kosinski, Karl Gajdusek
Gênero: Ficção Científica
Duração: 126 min.
Distribuidora: Paramount Pictures Brasil
Estreia: 12 de Abril de 2013
Elenco: Tom Cruise, Morgan Freeman, Melissa Leo, Nikolaj Coster-Waldau, Olga Kurylenko, Nikolaj Coster-Waldau, Zoe Bell, Andrea Riseborough, James Rawlings, Catherine Kim Poon.


quinta-feira, 18 de abril de 2013

Resenha: A revolução dos bichos

Imagem Google
A revolução dos bichos é uma sátira, em forma de fábula, ao Governo totalitarista da União Soviética e seu líder, Joseph Stálin. A narrativa de George Orwell, publicada em 1945, passa-se na fazenda do Solar, na Inglaterra. Sr. Jones, o dono, começa a ter problemas com o álcool e assim, acaba por negligenciar os animais. Estes, além de serem mal alimentados, são obrigados a trabalhar exaustivamente.

Um porco chamado velho Major reúne, no celeiro, todos os bichos e com um discurso afiado e uma canção “Bichos da Inglaterra”, acende em todos os “camaradas” o sonho de liberdade. Ele os convence de que precisam lutar contra aquela condição miserável de vida. Dias depois, o Major morre, mas outros dois porcos, Napoleão e Bola-de-neve dão continuidade ao seu ideal revolucionário – os porcos eram os mais inteligentes dos bichos. À nova ideologia dão o nome de animalismo. Certo dia, com fome e cansados de serem explorados, os animais expulsam o Sr. Jones e tomam a fazenda. Esta passa a se chamar Fazenda dos Bichos.


Sob a nova perspectiva criam sete mandamentos, os quais todos deverão seguir, entre eles: “qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo; nenhum animal matará outro animal e todos os animais são iguais.” Ao longo da história, no entanto, os mandamentos vão sendo modificados por Napoleão. Ele se torna o Líder após roubar o projeto de Bola-de-neve – a construção de um moinho - e o expulsar da fazenda. O poder lhe sobe à cabeça. Ele faz negócios com fazendeiros e passa a agir como os humanos. Os animais desobedientes são mortos. Por fim, o mandamento que fala a respeito da igualdade dos animais é reescrito. Torna-se “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros”, denotando a superioridade e privilégio dos porcos em relação aos outros animais. É o fim dos ideais de igualdade, princípio da revolução.


Desta forma, com o tempo, sem se darem conta, todos os outros bichos passam a ser manipulados e subjugados por Napoleão. Ele conta com a ajuda de Garganta, outro porco, responsável por levar aos bichos as ordens do líder. Resignados, os animais não reagem. A não ser as galinhas que, vendo-se obrigadas por, Napoleão, a aumentar sua produção de ovos, sob a liderança de três frangas - que depois são degoladas -, rebelam-se. Elas quebram os ovos e são duramente reprimidas. O líder resolve deixar de alimentá-las até que obedeçam suas ordens. Algumas morrem. As outras voltam ao trabalho. 

Como dito no inicio, a obra de Orwell satiriza à União Soviética, no período da Revolução Russa entre 1930 e 1940. No documentário “A História da União Soviética” é nítida a semelhança entre as atrocidades do sanguinário líder comunista Stálin, todo o contexto que o envolve e os episódios do livro. Mortes, fome, injustiça. Durante quase uma hora e meia, depoimentos e imagens chocantes revelam até onde um ser humano, em nome de uma ideologia, é capaz de chegar. De acordo com o documentário, o Socialismo de Karl Marx e Engels e o Nazismo de Adolf Hiltler caminham lado a lado. Esses governos totalitários têm como finalidade, a construção de um novo homem e de uma nova sociedade. Para isso, é preciso exterminar àqueles que não se enquadram nos padrões estabelecidos por tais ideologias.  Assim, conforme o documentário, sempre que um regime totalitário se instala em qualquer parte do mundo, 10% de sua população é dizimada.

No livro, os porcos representam os líderes comunistas: Napoleão é associado a Stálin e Bola-de-neve a Trotski. Homens com inteligência que chegaram ao poder para conduzir os desfavorecidos social e economicamente. Os outros animais são essa população desemparada. Eles são explorados e enganados; as informações que Garganta lhes dá são sempre manipuladas. São trabalhadores “braçais” como o burro Benjamim que, apesar de saber ler e perceber o que realmente acontece na fazenda, prefere cruzar os braços. As ovelhas que não querem saber de aprender e só sabem repetir o lema “Quatro pernas bom, duas pernas ruim”. O forte cavalo Sansão, seguidor servil e fiel de Napoleão que trabalha sem descanso e acaba tendo um fim dramático. Doente, ele é sacrificado. Como acontece nas ditaduras, aqueles que são contra são exilados ou mortos. No livro, essas pessoas são representadas pelas galinhas.

Em suma, as poucas páginas de “A Revolução dos Bichos” dizem muito. Levam o leitor mais atento a profundas reflexões. Não apenas sobre a União Soviética, o stalinismo, e o horror vivido pela população naquele período, mas também sobre a vida. Sobre a sociedade, as injustiças, a lei do mais forte, a opressão. E, sobretudo, é uma reflexão sobre como alguns homens podem ser cruéis com seu próprio semelhante, quando sucumbidos pela chama do poder, da ganância e do sentimento de superioridade.